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  • Cissa

Escritos de quarentena #2

Tenho essa sensação com as redes sociais. Parece que se não estou online estou perdendo alguma coisa importante.


Existe um sentimento de urgência, como se cada segundo desconectado fosse um escape de tempo. É como se perdêssemos coisas importantes o tempo todo, perdemos aquela notícia que todo mundo está falando, perdemos a live daquele artista que todo mundo gosta (mas a gente nem sabe se gosta mesmo), perdemos o destaque, os stories, as histórias dos outros, perdemos de postar, de fotografar, de ganhar likes, corações, aceitação. Cada segundo conta para não ser esquecido, para não ser obsoleto, descartado em meio a tantas opções e coisas mais "importantes"...


mas advinha?! - coisas importantes estão sendo perdidas por aí o tempo todo como a gente temia. Coisas importantes se perdem porque o tempo não para, e assim colecionamos desilusões e saudades que nem se sabe ao certo porque estão lá, uma saudade que vem dessas coisas perdidas. Uma dança no meio da sala de casa, um solo de air guitar, em um filme ou show antigo que a gente ama, cozinhar em família, tocar seu ukulele no sol da janela, Uma coleção de memórias não criadas, perdidas no brilho das telas e na solidão dos cliques.


Estamos perdendo momentos importantes sempre que olhamos o que de "importante" está acontecendo nas redes e assim, a tecnologia que devia nos aproximar, turva a realidade, torna normal ver experiências nas telas e não vivencia-las com quem está do lado, torna normal não sentirmos falta de contato, de conversas longas existenciais, de perguntas não respondidas pelo Google. E é tudo tão imediato que queremos mudar a ideia do outro, mas sem ouvi-la, porque ouvir é mais uma perda de tempo. Aos poucos nos tornamos mais um perfil, uma "amizade virtual", um número de whatsapp que não importa o que pensa porque afinal, é impossível de fato ferir os sentimentos que existem por trás de uma foto na rede social.


Me assusta esse sentimento de urgência nas redes. Por isso, o que se faz mais urgente é dar um tempo nos likes e nos bits, procurar mais abraços e mais hits que possam nos completar no real, aquecer a alma e tornar leve a vida com todos os seus desafios, medos e amores, pra que não hajam mais memórias perdidas por aí, que elas possam guardar uma coleção de sentimentos bons que nos fortaleçam e, enfim fortaleçam nossos laços reais de afetividade.

Quarentena: dia 53


É urgente (05/05/2020)

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